quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O armarinho

Em meu primeiro dia na casa nova precisei de uma escada para trocar a lâmpada do corredor, mas encontrei apenas o que me pareceu ser um antigo armarinho de banheiro jogado no canto da sala. Testei sua resistência com alguns leves pisões, e como não ouvi a mínima reclamação em relação ao meu sobrepeso, tirei-o de sua tranquila aposentadoria e o alcei ao cargo de ajudante geral. A partir daquele momento seríamos nós três: eu, minha esposa e ele. Ontem mesmo ligamos ao cartório atrás de sua documentação, não queria tratá-lo sem o devido respeito aos mais velhos e nem fazê-lo pensar que não o estimávamos por seus préstimos. Mas como não encontrei nada a respeito de seu nascimento, decidi apelidá-lo de Fernandes, em homenagem ao antigo patrocinador da Portuguesa de Desportos. Agora ele caminha solitário pela casa, esperando a nossa chegada. Quando está deprimido se recolhe ao quarto da esquerda, ainda desabitado, e se põe de pé junto à parede. Fica soberano em meio ao vazio. Nos dias felizes se arrasta pela sala e faz companhia ao colchão inflável e à bomba de ar. Ficam horas e horas sem uma palavra. Porém, já notei que é dado a tranquinagens: se posta no corredor sorretairamente e passa a perna nas visitas distraídas, se desvira no meio da noite para chamar nossa atenção e outro dia chegou a esconder uma chave de fenda que a dias procurávamos. Espero que hoje à noite esteja tranquilo para me apoiar na colocação de um gancho no teto, mas antes precisarei de uma boa psicologia para explicar que não amamos o espelho recém-chegado na sala mais do que ninguém, apesar de olharmos mais para ele.

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