terça-feira, 24 de junho de 2008

Dia Comum

O dia amanheceu com uma fina camada de neblina cobrindo a cidade. Eu pensei em ficar na cama e aguardar o sol aparecer, mas não dava para matar a minha avó pela terceira vez no ano e ser desmentido por ela mesmo mais tarde. No caminho do trabalho passei por cachorros fazendo sexo no gramado, bêbados soterrados por jornais nos bancos das praças e um mini-comício silencioso que se armava na avenida em defesa dos surdos-mudos. A mesa era a de sempre e o computador parecia um carro movido a álcool no frio da Sibéria: demorou umas três apertadas de liga/desliga para o windows me saudar com aquele som mais conhecido do que qualquer canção dos Beatles. Bill Gates é tão famoso quanto Jesus Cristo.

Os e-mails me ofereciam um pau maior, vídeos de mulheres rolando no gel e tudo o mais que me seria importante se eu trabalhasse numa produtora de sexo bizarro. A vizinhança de ofício chegou aos poucos. A combinação de tons dos puloveres, luvas, toucas e botas era fantástica. Ganharíamos qualquer concurso de beleza entre tribos africanas. À tarde aproveitamos uma viagem inesperada do chefe para matarmos o tempo com cafezinhos e palavras cruzadas. Na máquina de xerox o office boy testava seus dons artísticos, sobrepondo documentos, colocando bigodes em fotos 3x4 e transformando contratos em fanzines punks da década de 80. O "começo do fim do mundo" seria um concerto bem mais anárquico se o rapaz já fosse nascido à época. Cheguei estafado de não fazer nada e fui saudado com o amor e o protocolo que os trabalhadores do Brasil tanto merecem: sopa, novela e uma cerveja. Adormeci na sala e acordei assustado horas depois com o pastor tentando tirar o demônio de alguém aos berros em cadeia nacional. Cambaleei até a cama e desejei que o presidente morresse e o Congresso imediatamente decretasse feriado nacional. A minha avó morreu.

Nenhum comentário: