“O prédio tem ‘cara’ de que fica infestado de baratas no verão”, observou minha mãe, em sua primeira visita ao meu apartamento, situado num destes antigos edifícios de três andares, na zona norte da cidade. “Seria bom vocês colocarem janela na área, proteção nos ralos e não esquecer, em hipótese alguma, a janela aberta”, sugeriu. Porém, após um ano sem ver um mísero inseto pelas redondezas, e olha que vasculhei!, imaginei que a dona Therezinha houvesse errado um prognóstico pela primeira vez na vida. Ledo engano. Coração de mãe é foda. Ontem, quando fui pegar uma cueca no varal, lá estava a bicha, com as asas marrons, as patas alongadas, descansando na parede que dava acesso ao banheiro. Parecia calma e serena. E agora? Esmagá-la com um chinelo, tirar fotos dos restos mortais e mostrar para o mundo inteiro, via internet, que naquela casa existe um verdadeiro Indiana Jones? Seria uma boa! Mas bem na hora da janta? Pensei no Detefon. Porém, espirrar veneno pela área toda e depois vestir calça, camisa, cueca e meia com cheiro de veneno não estava nos meus planos. E a minha mulher ainda me quebraria na porrada. "Sujando a roupa que acabei de lavar, seu imprestável". Então, decidi testar algo novo: acendi e apaguei a luz duzentas vezes, imaginando que um ambiente com iluminação instável iria dispersá-la, assim como ocorreria comigo se estivesse no Metrô ou no Shopping e tudo começasse a piscar. Ou então na rua se o sol sumisse e reaparecesse. Mas não! Além de não adiantar absolutamente nada, a lâmpada queimou. Já irritado, iniciei um diálogo ríspido com ela. Comecei a berrar ainda no escuro todas as frases de filmes americanos de ação que eu me lembrava: “Você é a doença e eu sou a cura” (Stallone Cobra); “Eu já era tira quando você ainda se masturbava com catálogos de lingerie” (Caçadores de Emoção); Ei, Sally, gostei de você, vou te matar por último” (Comando para Matar). De repente vi o que julguei serem suas anteninhas se mexerem em tom de escárnio, o que me irritou ainda mais. Fui no quarto, peguei uma lanterna e, surpresa!, quando a iluminei, tive a impressão de que o monstro havia crescido. Mas crescido muito. Como nada que existe neste mundo jamais poderia crescer. A sombra das suas asas ocupavam a parede inteira. As antenas começavam no teto e saíam para o andar vizinho. Deus, aquilo não era uma barata, mas um monstro alado, impossível de ser combatido por um único ser humano. Seriam necessários a Guarda Real, os Mariners americanos, os Pára-quedistas britânicos, o Mestre dos Magos... Ou, então... a minha mulher, que numa simples chinelada a matou e com uma pá de lixo a recolheu e jogou fora.
- Vamos jantar, Indiana Jones?
- Vamos jantar, Indiana Jones?
- Vamos! Mas que fique bem claro, a situação já estava dominada.
5 comentários:
Sensacional. Um dos melhores textos que já li aqui. Tenho alguns comentários:
1) Amei a estratégia de apagar e acender a luz
2) A verdadeira heroína de todas as histórias é a mulher
3) A Deia matou o Kafka!
beijos
hahahahahaha!!!! amor...quase morri de rir...muito bom!!!!
Este é você...hahahaha
Hahahaha chorei de dar risada!
Muito Bom!
Bjocas Lu.
Na próxima vez, faça como eu...Não se arrisque tanto! Fique bem afastado, num lugar seguro, pois na hora da chinelada pode espirrar algo em você!
HAhaHAHaha... retardadinho, HAhaha...
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