segunda-feira, 12 de maio de 2008

A dor de uma paz contínua

Tenho medo do silêncio eterno do apartamento ao lado. Talvez alguém esteja morto e guardado aos pedaços no armário da lavanderia. O filho que chegava bêbado, errava a fechadura por vinte minutos, e nunca mais foi visto. A mulher que aparecia com um olho roxo e desapareceu. O marido que exigia amor aos berros e subterraneamente evadiu-se. O cachorro que latia para alguém levá-lo para passear e ficou quieto. O aparelho de som no último volume que impedia os vizinhos de assistir ao Jornal Nacional e atualmente não emite sequer um mantra budista. Nem os talheres em atrito com o vidro do prato ouço mais. Será que as cadeiras, as mesas e até mesmo os janelas ganharam espuminha anti-ruído na ponta?! O vento foi proibido de chacoalhar as persianas? Em que momento as dobradiças da porta de serviço receberam uma mão eficiente de óleo singer? Nem o Palmeiras, o Corinthians, o Santos e o São Paulo conseguem estimular algum grunhido ali dentro. Amanhã baterei forte na porta e tocarei o interfone incessantemente. Nem que seja só para ouvir que foi o amor que acabou e os bons modos venceram.

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