segunda-feira, 26 de maio de 2008

Um dia comum

O menino que nunca havia tomado sol bateu em minha porta. Queria saber se eu poderia lhe emprestar duas xícaras de açúcar. No fim levou um pacote inteiro e ainda fumou um cigarro de filtro amarelo, batendo as cinzas na pia da cozinha. Assim que saiu voltei a assistir a final da Liga dos Campeões e tomei um golinho de café amanhecido. Se morasse na Inglaterra apostaria toda minha renda no Machester, mas no Brasil o jeito era guardar o palpite na área de memória curta do cérebro. O telefone tocou no exato momento em que a mão direita de Van Der Sar garantia mais um título para o Red Devil. Era a moça do prédio da frente alertando que há duas horas me observava e tinha chegado à conclusão de que estava gordo, e que isso era uma pena, pois queria se declarar, mas só quando eu emagrecesse e trocasse os shorts do corinthians com patrocínio da suvinil por uma calça jeans da levi's e uma camiseta justa da zoomp. O cabelo podia deixar sem corte, que estava na moda. Desliguei pensando em tudo que havia sido dito e andei com o abdômem contraído, como sugeria o manual de Charles Atlas, na esteira o suficiente para ir de São Paulo a Macapá. Tirei a camisa e constatei no espelho que os gomos do meu abdômem saltavam igualzinho aos de um halterofilista búlgaro, mas que mesmo assim eu ainda não amava a vizinha da frente e até achava que a sua bochecha rosada demais indicava alguma cardiopatia ou falta de óleo de fígado de bacalhau na infância. Encontrei alguns conhecidos no bar da esquina e debatemos sobre a possibilidade real da soja do Mato-Grosso chegar aos Andes e desbancar a Quinoa, que ultimamente vinha sendo bastante usada na dieta das estrelas globais por sua grande quantidade de proteínas e antioxidantes. Depois defendemos a escalação ideal para o Corintians sem que o treinador nos ouvisse. Subi a rua já um pouco trôpego, mas disfarcei bem e ninguém em casa percebeu a coisa toda. Só reclamaram da louça suja e a comida descoberta em cima da mesa. Dormi tranquilamente e não sonhei com elevadores que despencam comigo dentro. Acho que superei esta fase aérea.

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