quinta-feira, 29 de maio de 2008

Na natureza selvagem

Eu e minha namorada fomos ao campo passar metade das férias em meio ao ar puro. Uma cidadezinha bucólica, recheada de montanhas e borboletas, que poderia facilmente estampar a embalagem de qualquer chocolate ao leite ou papel de parede do computador. Buscávamos uma quina da felicidade tão propalada na televisão e noticiada nos cadernos de turismo dos jornais. Pular na cachoeira para renovar as energias. Comer frango caipira, o único que realmente contém vitaminas e não dá câncer. Tomar leite da vaca, colher alface da terra, acender incenso no quarto, tirar uma foto com o pôr do sol ao fundo, ver crescer os planos de nunca mais voltar à cidade. Por um instante chegamos a cogitar permanecer na serra (acho que foi no primeiro minuto do primeiro dia!), vivendo de fazer artesanato (ela) e doce de leite (eu). Os filhos teriam cabelos claros e nomes indígenas. Seriam a versão brasileira dos vikings. Daríamos uma banana para os capitalistas presos no trânsito, na mesa dos escritórios, na televisão, na obesidade mórbida...

Mas algo saiu errado. A noite fria em contraste com o dia quente desestabilizou meu nariz. Precisei de um quilômetro de papel para assoá-lo. Já não éramos ecologicamente corretos. As bromélias, orquídeas e lírios precisariam dar lugar aos pinheiros e a uma fábrica da Klabin. Em menos de 24 horas estava viciado nos rolos de papéis ultra-macios Neve com preços super faturados pelo custo do transporte. E depois necessitaria de um tubo de Hipoglós para recompor a pele assada. Isto se no dia seguinte o estômago não acusasse o golpe. O frango caipira não simpatizou com meu sistema digestivo urbano e a água não tratada das montanhas inundou de bactérias malignas o intestino. Estava claro que só sobreviveríamos ao campo se alguma unidade do Hospital Albert Einstein nos apoiasse na empreitada e instalasse uma filial na encruzilhada ao lado da pousada. Eu precisava de soro, antibióticos, aparelhos monitorando minha frequência cardíaca e não de chás vegetais e Reiki.

No quarto dia o corpo começou a melhorar, não sei se por obra dos anticorpos ou dos gnomos curandeiros avistados por todos na cidade (menos eu) ou dos dois juntos. E com a paz do corpo físico era o momento de voltar a equilibrar a alma. Primeiro com uma caminhada em meio ao vale e depois com uma meditação na pedra da bruxa. Mas o barulho do trovão nos despertou do transe. O barulho do vento nos despertou do transe. A possibilidade de uma cobra nos picar disparou o coração. As abelhas sobrevoando as flores nos tirou o sossego. Os pingos de água gelada da chuva nos congelou. Corremos para o quarto. Éramos felizes com a lareira ligada, uma garrafa de vinho aberto, frios e pães dispostos na cesta e um bom rock and roll. Pegamos o caminho de volta felizes. Tínhamos fotos para deixar na estante da sala. Seria o único momento em que nos divertiríamos na mata.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pqp, véio. Acho que você está se acostumando a esta "casa". Os textos estão cada vez mais soltos. Muito bom, bom mesmo...

Unknown disse...

Seguindo a linha de criticar o ruim em vez de elogiar o bom, rs, frango só tem vitamina se tiver comido uma fruta que ainda esteja no estômago dele e você coma tal estômago, blargh, hahaha.